0

Travessia

Fui a uma festa de adulto em um Buffet infantil. Nada mais interessante, afinal, quem se diverte mesmo em festas são as crianças, porque os adultos, normalmente, onde quer que esteja, só fica sentado comendo, bebendo e jogando conversa fora.

Já fomos várias vezes nesse lugar, porque as donas são amigas da família do meu marido. E todas as vezes meu filho observa e divertida tirolesa.

A primeira coisa que meu filho me disse quando entramos foi: eu não posso ir, mamãe, sou pequenininho. Imediatamente minha sirene assinou e eu disse, honestamente: sim, você é pequenininho, mas isso não te impede de ir. Caso queira, eu vou com você. Quer ir? Só que não.

Depois de muita bolinha de queijo, suco natural de abacaxi, sobe e desce, corre e corre, meu filho grita, de lá de cima do brinquedo: “Mamãe, vamos na tirolesa!”. Não quis saber de ninguém colocando medo na minha cabeça. O que a vida quer da gente é coragem, já dizia Guimarães Rosa. Com cautela, claro, mas eu já sabia que o brinquedo era seguro.

Subi correndo. Antes da nossa vez, um menino, da idade do meu filho, com o pai, estava atravessando o arvorismo. No meio do caminho pensei: e se ele cair?

NÃÃÃO.

Espantei esse pensamento na hora! Não poderia haver espaço para pessimismos na minha cabeça. Ele iria chegar até o fim e ponto.

Início do circuito, fomos super bem. Até que chegou na parte em que as pegadas eram mais afastadas umas das outras. E meu filho travou:

– Mamãe, eu vou cair.

– Não filho. Você vai fazer direito e vai chegar até o fim. Se concentra, foco e vai.

Assim, ao invés de desencorajá-lo, eu convenci ele de que era capaz. E não deu outra. Ele foi todo concentrado e chegou até o final, para nossa deliciosa travessia de tirolesa.

Anúncios
0

O corte da maçã

Amanheceu um dia gelado em Jaboticabal, interior de São Paulo. Cidade quente, não nesse dia. Mas calor pode não ser do sol, pode ser do ser humano. E assim passei algumas horas, desde minha chegada à pequena cidade, às 6h da manhã, até as bodas da minha melhor amiga. (existe melhor amiga? fica assunto para outro post).

A noiva me buscou na rodoviária, fomos para a casa dela, todos ainda dormindo. E com ela aprendi uma lição, que veio da tia.

Tia Edna é uma mulher colorida. Sorri, fala e veste cores. Ela conta o porquê que nós, mães, devemos dividir a maçã em três.

Mulher batalhadora, teve dois filhos, trabalhou como professora em escola pública. odos os dias trazia uma maçã para casa e dividia em dois. Uma metade para cada filho. Tirar de si para dar para os filhos.

Entretanto, ela nos mostra, doce, como a fruta: por que não dividir a maçã em três? Afinal, eu também sou gente, também estava lá. E é assim que ela nos mostra como as mães temos uma tendência amarga de nos anularmos.

Dar o melhor para os filhos, proporcionar boa alimentação, segurança, educação diversão. Tudo nossa obrigação (quem nega?). Mas isso não preciso ser tão extremo, ao ponto de não sobrar (sobrar!) nada para nós.

Além do mais, quem se faz invisível, fica invisível. Os filhos precisam enxergar que os pais estão ali, também são seres humanos com necessidades fisiológicas, psicológicas. E falhas. E limitações.

Não vai ser o espelho mágico que vai te dizer o quanto você é valiosa. É você mesma. É a maçã. Dividida em três.

Então, vai pegar seu pedaço?

 

 

0

Cada dia uma nova descoberta

Os filhos mudam…

…e surpreendem.

Na maternidade ele não mamava, só dormia. Em casa ele mal dorme, mas como mama!

Então eu começava dando a mama mais cheia, mas hoje ele prefere a mais vazia…

Fui tentar deitá-lo na minha perna, ele não coube mais…

Acordei esperando ver o bebê que coloquei para dormir ontem à noite, ele está ainda mais lindo!

0

O Ser Mãe

Sempre quis ser mãe.

Quando me descobri grávida, pesquisei sobre fetos, alimentação, sobre como organizar o quarto, trocar fraldas, cuidar do coto umbilical, fazer massagens e dar banho. Fiz cursos, participei de aulas sobre amamentação. Assisti a programas de TV e li reportagens e livros sobre como educar e manter a disciplina dos filhos dentro e fora de casa.

Logo fui pega de surpresa. Cuidar do Pedro não estava sendo apenas acordar de madrugada para amamentar, trocar a fralda e colocá-lo para dormir. Ele me solicitava constantemente, queria peito e colo, tinha dificuldade para dormir.

Tive que ensiná-lo a sugar, ajudá-lo a pegar no sono, a se acalmar. Só eu poderia dar o que precisava. Não haveria férias, final de semana nem fim de expediente. Trabalho em tempo integral, de segunda a segunda, para o resto da minha vida.

Também me assustou a falta de rotina. De repente eu não conseguia mais fazer café da manhã, jantar com meu marido, arrumar a casa, comer devagar. Então percebi que, no fundo, acreditei que minha vida seria quase igual ao que foi até então, porém com um bebê. Tudo sob (meu) controle.

Fiquei ansiosa e me perguntava: Onde está aquela mulher segura e confiante que se deu o diploma de mãe? Foi quando entendi.

O Ser Mãe é um escola eterna;

É adaptar a própria vida e começar uma nova rotina;

É colocar o filho em primeiro lugar. Isso é bom ou interessante para meu filho?;

É observar com atenção seus movimentos, suas expressões, e cada parte do seu corpinho;

É pesquisar constantemente sobre cada fase e saber de suas necessidades;

É entender que o adulto não é superior à criança, ele apenas nasceu primeiro;

É dar um brinquedo não esperando que ela fique quieta e dê sossego, mas brincar junto e ensinar;

É deixar de terminar a massa do bolo ou de lavar o cabelo para dar colo;

É confiar;

É a melhor coisa do mundo.

Indicações

Quero mesmo ser mãe?

O nascimento e a família: você sabe o que é ter um filho?

Ninguém segura esse bebê – Flávia Calina

0

Bolo de cenoura – a saga

bolo-de-cenoura   Aprendi na escola da infância: o processo é mais importante do que o resultado. Por isso desenvolvi uma tara especial por fazer bolos. Eu me sentia capaz, astuta, habilidosa e guerreira. Era um ato de coragem.

Toda semana vestia o avental de confeiteira, até que meu bebê nasceu. Comecei a ter medo de fazer bolo.

Me assombrava a ideia de estar batendo a massa e o Pedro começar a chorar ou ele estar mamando bem na hora de tirar do forno. Meu trabalho fracassaria.

Porém sentia muitas saudades da Livia Boleira. E receber o maridão com essa surpresa, comer depois do jantar, um pratinho e dois garfos…

O Pedro fez 3 meses e eu finalmente entendi que meu filho veio não para me atrapalhar, mas para me ajudar. Me estimular a dar o meu melhor, executar as tarefas com mais capricho. Então me encorajei e o coloquei sentado em uma cadeirinha de balanço olhando para mim, na porta da cozinha.

Certamente se fosse qualquer outra pessoa eu iria interagir. Logo, por que não interagir com meu filho? Diante de quem apenas começou a conhecer o mundo, só me restou… Ensinar! Passar adiante a receita da minha mãe, a qual costumeiramente chamo de “a melhor do mundo” (porque o bolo melhor do mundo quem faz ainda é ela…).

Peguei 3 cenouras (pequenas, se fossem grandes seriam 2) e expliquei que cenoura é uma raiz. Mostrei a cor laranja, bonita, viva. Descasquei de modo que ele pudesse ver. Coloquei para bater no liquidificador, e avisei:

Agora vai começar um barulhão em um, dois três e já!

Ele arregalou os olhos, me olhou e eu expliquei: É o liquidificador, querido. 

Depois, explicando tudo o que eu fazia, adicionei os 3 ovos (vem da galinha, filho…), 3/4 de xícara. de óleo, 2 xícaras de açúcar (plantação de cana…), e uma xícara de água morna. Acrescentei o creme, aos poucos para não empelotar, às 3 xícaras de farinha de trigo, peneiradas junto a 1 colher de sopa de fermento em pó.

Coloquei no forno e marquei 45 minutos. Pensamento positivo, tudo daria certo.

O forno apitou e fiz o brigadeiro, correndo. O despertador da fome do pequeno já ia tocar.

Despejei a cobertura, e tirei uma foto para enviar ao amor por WhatsApp: “Olha o que te espera”.

E assim ficou registrado nosso primeiro bolo – do Pedro e meu. O mais corajoso que já fiz na minha vida.

0

Hora de trocar a fralda. OBA!

– Filho, vamos trocar a fraldinha? Está preparado? Um, dois, três e já!

Essa atividade não precisa (nem deve!) se resumir em algodão, água morna e pomada. Limpar o bumbum – mordível – do meu bebê está sendo uma excelente oportunidade de aprendizado e interação.

É um momento para colocar em prática a máxima “gentileza gera gentileza”: Posso tirar suas fraldas? Está preparado pra isso? Me dá sua perninha? Obrigada, querido.

Aprendo a ser delicada: O bebê dificilmente vai quebrar, mas aqui vai meu atestado de garantia: todos gostamos de ser cuidados e tocados com carinho e delicadeza, inclusive, pasmem, os pequenos. E convenhamos, caros humanos, alguém ficar limpando nossas partes íntimas está fora do apanhado “1000 coisas para serem vividas antes de morrer”. Ironicamente, essa é uma das primeiras ao nascer.

Eu, pelo menos, enquanto estava na maternidade, precisando ser cuidada, gostava mais das enfermeiras atenciosas e doces do que das indiferentes ou com jeito de meu-sapato-está-apertado. Quem não?

Também aproveito para observar meu bebê e descobrir mais sobre ele. Os olhares, risadinhas, a forma como ele se mexe, um novo movimento que aprendeu a fazer.

Depois de pronto, anoto as novidades que observei no Diário do Pedro, enquanto ele se diverte com a mãozinha.  Última anotação, até agora: Pedro agarrou o bico do peito e o direcionou para a boquinha, para mamar.

E aqui vou me despedindo, com um pedido de licença, para que eu possa ir limpar as MINHAS babas.